“Love hurts but sometimes it's a good hurt And it feels like i'm alive”
Explane sobre sua fé, e sobre tudo o que acredita. Talvez deixem de te creditar. Irão te olhar torto, “você tem fé em coisas estranhas” – é o que dirão. Talvez se fossem fadas e duendes não te julgariam tanto. Mas você acredita naquilo que machuca, naquilo que te derruba. E quem mais faz isso? Ninguém. Você tenta explicar sobre uma certa chama, sobre o que lhe traz vida. Mas você é estranho, irão te olhar torto.
“Love sings When it transcends the bad things have a heart and try me”
Explane sobre o paraíso, sobre o perfume das rosas, sobre a sinestesia, sobre a elevação máxima, sobre a paisagem onírica, sobre as cores, o mais doce gosto, e todo o térmico que lhe aquece no frio e lhe resfria no calor. A dor como um período. Explane sobre a perfeição dos sentidos. Talvez não adiantará, mas quando o poeta não encontra palavras para definições, é porque não existem palavras que descrevam a perfeição da combinação.
Era por essência o momento do qual mais se esperava. Enquanto havia dor em um portal real, na ilusão onírica você encontrava seu conforto e seus desejos. Um imponente anjo lhe inspirava uma vida, fazendo-lhe acreditar que havia objetivos, e dentre portais de confiança, você já imaginou que conseguiria. Um dia o anjo lhe ergueu a mão, você conheceu a sinestesia. Mas hoje você tem certeza que ouviria risadas dele. Você tem medo de sonhar. Você mal pode dormir. Estás condenado em todas realidades e inexistências.
“Where are you? And I'm so sorry I cannot sleep, I cannot dream tonight.”
Você grita ao nada, sem saber pelo que procura. Não há o que perguntar, não haverá respostas. Clame a uma conversa banal, e reze para ser saudado. Ao menos o eco poderá te responder, embora podemos considerá-lo como um encontro interno, que pode resultar em uma conclusão, diria você uma eclosão, e culminada tal explosão, certezas chegarão. Talvez seja apenas isso que precisamos, algo interior com o ego e com o eco.
Mas não há nem ecos para me saudarem.
“So why're you sad?
Don't you know that It's you that haunts my dreams and seems to always come back?”
E há o momento que você tenta evitar o inevitável. Período ou provação necessária, não há com o que se importar, mas seu estado não pode mudar, seu espírito não sorrirá sem motivos, você está morto independente do que ouvir. Talvez seja melhor não ouvir. Mas abrace quem te ergue a mão.
“How do I live without you?
How could you walk away from this,
Escuro como o universo, como o medo personificado (e metaforizado) em um corvo, como meu quarto à meia noite, como o brilho dos olhos fechados.
“Tudo bem. Eu adoro o escuro” – repeti alto para mim, prosseguindo com a caminhada.
Ensinaram-me a olhar para os lados. Ensinaram-me a olhar para trás. Mas eu só queria olhar para frente, pois sabia que era nessa direção que eu encontraria algo, era nessa direção que minha existência em um lugar escuro faria ou não um sentido. Era como andar desprevenido e correr algum risco. Mas como viver olhando para trás? Eu sabia que deveria seguir, que não iria me arrepender. Instinto, inconsciência, necessidade. “Apenas siga em frente”.
Então um brilho, uma luz. Um ser já conhecido em meus sonhos, um anjo em corpo de mulher, com asas que brilhavam e refletiam em meus olhos não somente a pura luz que os livros simbolizam como a salvação e o conhecimento, mas refletiam em meus olhos o verde de uma esperança e a chama de uma alma com vida. E ter vida não é apenas perambular com um corpo por uma praça. Ter vida é viver. E a luz de suas asas, de sua face angelical, de seu sorriso tímido, trazia a mim justamente isso... vida!
Eu não precisava fazer nada. Poderia me sentar no chão e apenas admirá-la, apenas ver a beleza dos anjos de perto, e respirar o ar das flores e dos sonhos. Já havia feito isso antes. Ora a encontrava correndo, ora a encontrava em um caminho nublado, ora a encontrava se escondendo de mim. Da última vez, havia encontrado-a parada, como agora, e minha ação fora aquela, parar e admirá-la. Tão próxima, tão bela. Não sei medir quantas horas fiquei parado na frente dela. Talvez seja porque não se mede horas em sonhos.
E agora, ela parada diante de mim novamente. Ter andando em frente havia, uma vez mais, valido a pena. Mas desta vez não me contive em apenas olhá-la. Algo que trazia de outro mundo fez com que eu falasse. Algo que se segurava dentro de mim, e saiu como um tiro.
- Pode rir de mim agora. É justo. Eu nunca faço nada direito.
E ela, ainda imóvel, imponente a minha frente, apenas com os cabelos esvoaçando sob um vento que soprava somente a ela, moveu seus lábios a falar:
- Rir é uma arte. Você deveria tentar. Apenas abra seus olhos. E ria comigo.
Sua voz de anjo soprou em minha mente como a mais bela brisa de uma manhã de primavera em um quadro pintado a mão com as mais belas cores do universo. Já havia falado comigo antes, há muito tempo. Já não me lembrava mais como era boa a sensação de ouvi-la.
- Meus olhos estão abertos. Por que... – minha voz falhou – sempre... dizem... isso?
- Se estão abertos... por que não notas que minha mão está estendida a ti?
E estava. O olhar com o qual me fitava, sua mão estendida, e o inebriante ar perfumado ao meu redor, impediram-me de tomar qualquer ação consciente, se é que esta existe em um mundo dos subconscientes e fantasmas. Então, segurei sua mão.
E tudo girou. E tudo mudou. Cores e paisagens surgiam de todos os lados e direções, organizadas dentro da desorganização. O vento que antes soprava apenas a ela, agora soprava para mim, trazendo-me cheiros e emoções inimagináveis, indescritíveis, como se todo perfume das rosas entrasse em perfeita sincronia com o ar da nostalgia e aquela alegria melancólica que acompanha meu espírito. Música, havia música, e embora eu não a reconhecesse, ela cantava em meu ouvido trazendo toda aquela esplendorosa sensação que apenas uma música consegue trazer. Estava aprendendo a voar. Eu não sabia se poderia resistir muito mais tempo. Sentia meu coração pulsar, e cada hemácia de meu corpo percorrer minhas veias em uma dança única, como se um grande espetáculo musical se manifestasse em cada ponto interno de meu corpo.
Uma vez mais, minha vida fora desse mundo veio-me à cabeça. Eu tinha a plena consciência que os acontecimentos do lado externo do mundo dos fantasmas andavam em perfeita sincronia com os fatos que vivenciava naquele plano. Acreditei naquele instante que toda minha insegurança, meus problemas, minha incapacidade de me achar capaz, que tudo estava resolvido, que eu estava pronto para respirar alegria para sempre.
Então acordei.
Mas a música não havia parado. Eu ainda sentia o perfume das rosas. Ainda enxergava as cores. E, embora tremesse e suasse, pude fazer o gesto mais simples e puro que se pode realizar enquanto vivo...